A pandemia colocou a ciência no centro das notícias, da reflexão e da esperança.

Discutem-se modelos e curvas epidemiológicas, estatísticas e previsões, tecnologia e acurácia de testes, ventiladores pulmonares, diagnósticos, medicamentos, fases de desenvolvimento de vacinas, estratégias de enfrentamento.

Epidemiologistas são chamados para entrevistas, artigos de opinião e debates.

Esta súbita visibilidade tem sido acompanhada por manifestações públicas do chamado efeito de Dunning-Kruger, um viés cognitivo estudado no final do século XX que demonstrou como pessoas incompetentes ou com capacidade limitada para o desempenho de determinadas tarefas ou funções sobrestimam a sua capacidade para o desempenho dessas tarefas ou funções.

No caso de pandemias, as consequências dos devaneios são perigosas.

A informação que está publicamente disponível é limitada e nem sempre devidamente estruturada. Na maioria das vezes, não foi revista pelos pares ou publicada em revista científica de prestigio. No entanto, quando combinada com conhecimentos rudimentares de estatística leva à construção de modelos, ao desenvolvimento de teorias rebuscadas e de previsões sobre a evolução da pandemia, a sua importância comparada com outras infecções e até possíveis medidas de saúde pública.

O que torna este efeito particularmente perigoso são as manifestações públicas de superioridade ilusória de dirigentes políticos ou de acadêmicos e cientistas não especialistas nos temas.

O combate a estas desinformações é crítico. A pandemia é uma emergência de comunicação, não apenas um problema de saúde pública.

Muddy science

Nesta primeira reportagem da série sobre Covid-19 são abordadas duas vacas sagradas da pandemia: o distanciamento social e o uso obrigatório de máscaras.

Distanciamento social

"Não se espera que o público faça apenas o que lhes é dito pelo governo por muito tempo, já que as diretrizes são disruptivas e não são cientificamente sólidas como as autoridades fazem parecer", afirma um consultor do governo do Reino Unido.

Um exemplo seria a regra para as pessoas manterem dois metros de distância das outras para reduzir o risco de infecção, diretiva que foi "evocada do nada" ("conjured up out of nowhere"), afirma Robert Dingwall, professor da Nottingham Trent University.

Professor Robert Dingwall: 'There’s never been a scientific basis for two metres, it’s kind of a rule of thumb. But it’s not like there is …rigorous scientific literature that it is founded upon’. Foto: Pixabay

"Nunca houve uma base científica para dois metros, é uma espécie de rule of thumb (regra sem base em fatos ou conhecimento científico, não confiável para todas as situações). Não é como se houvesse toda uma literatura científica rigorosa sobre a qual se baseia”, disse Dingwall no programa Today da Rádio 4 da BBC. Existem evidências que observar a distância de um metro seria benéfico durante uma epidemia, mas ainda assim “provém de estudos internos em ambientes clínicos e experimentais".

Dingwall reconheceu que, neste caso, como em muitos outros, "a ciência é turva" e não aponta "em uma única direção da maneira que é representada". Mas sua preocupação é que será mais difícil convencer o público a seguir as diretivas do governo se a base científica para isso for questionável.

"Não podemos sustentar [medidas de distanciamento social] sem causar sérios danos à sociedade, à economia e à saúde física e mental da população", afirmou Dingwall. "Eu acho que será muito mais difícil obter o cumprimento de algumas das medidas que realmente não têm uma base de evidências".

A entrevista, exibida no sábado (25), chega no momento em que o governo britânico está enfrentando um escândalo envolvendo Dominic Cummings, o principal assessor político do Primeiro-Ministro Boris Johnson, e o Grupo Consultivo Científico para Emergências (SAGE).

A presença de figuras politicamente afiliadas nas reuniões de um órgão que mantém em segredo a lista de seus membros e deve fornecer recomendações puramente científicas levantou questões sobre como isso ajudou a moldar a resposta do Reino Unido à epidemia de Covid-19.

Dingwall, que pertence ao Grupo Consultivo para Ameaças a Vírus Respiratórios Novos e Emergentes (NERVTAG), um órgão que alimenta o SAGE, falou à Rádio 4 antes do escândalo. Mas ele expressou ceticismo sobre o anonimato dos membros do SAGE, dizendo que dificulta o julgamento de seus conhecimentos científicos.

“Pode haver um problema com o SAGE sobre o leque de vozes que são ouvidas lá. Há uma tendência entre os cientistas eminentes de pensar que eles podem ser especialistas em tudo”, disse Dingwall.

Máscaras

No dia 3 de abril de 2020, após a publicação de artigos científicos que sugerem a ineficácia do distanciamento social de 1-2 metros, da possibilidade do contágio pelo ar, e que até 80% dos doentes de Covid-19 são assintomáticos, a Organização Mundial de Saúde (OMS) decidiu reavaliar as suas recomendações sobre o uso de máscaras para prevenir a contaminação com o coronavírus.

Até então, a OMS era absolutamente contra o uso de máscaras em locais públicos por pessoas não infectadas pelo coronavírus SARS-CoV-2.

Governos promovem falsa sensação de segurança. Foto: © Flavio Gasperini
Governos promovem falsa sensação de segurança. Foto: © Flavio Gasperini

Os profissionais de saúde que estão em contato direto com doentes de Covid-19 precisam usar máscaras hospitalares especiais, que protegem o usuário de ser contagiado pelo coronavírus.

Já uma máscara hospitalar normal, ou confeccionada em tecido comum, ao entrar em contato com uma pessoa infectada absorve gotículas com o vírus, expondo o usuário ao risco de contágio na respiração ou ao tocar no exterior da máscara e depois nos olhos, nariz ou boca. Ou seja, o uso dessas máscaras não apenas não protege o usuário como potencialmente ameaça a sua saúde. Daí o motivo da OMS desaconselhar fortemente o uso. O Ministério da Saúde do Brasil também era contra.

Contudo, enquanto a OMS contraindicava o uso das máscaras, a entidade recomendava o distanciamento social de 1 metro, então adotado por autoridades de saúde mundo afora, especialmente ao ditar regras para bares e restaurantes.

Reprodução  © Youtube/World Health Organization (WHO) Feb 5, 2020
Reprodução © Youtube/World Health Organization (WHO) Feb 5, 2020

Nesta terça-feira (28), a OMS ainda mantém o vídeo e a recomendação da distância de 1 metro em seu site.

Maintain social distancing

Maintain at least 1 metre (3 feet) distance between yourself and anyone who is coughing or sneezing.

Why? When someone coughs or sneezes they spray small liquid droplets from their nose or mouth which may contain virus. If you are too close, you can breathe in the droplets, including the COVID-19 virus if the person coughing has the disease.

These materials are regularly updated based on new scientific findings as the epidemic evolves. Last updated 31 March 2020

Quando a pandemia chegou aos Estados Unidos, a academia americana se voltou para o problema e a recomendação da OMS foi questionada por um artigo da professora Lydia Bourouiba, chefe do Laboratório de Dinâmica de Fluidos de Transmissão de Doenças do MIT. A professora já tinha mostrado em 2014 que o alcance era bem maior – pode alcançar 8 metros – e que o vírus permanece no ar.

Em artigo publicado em 26 de março de 2020 no periódico científico JAMA, Bourouiba critica a implementação de recomendações de saúde pública com base em modelos que perderam a validade.

"Se as estratégias de distanciamento social são críticas no momento atual da pandemia, pode parecer surpreendente que o entendimento atual das rotas de transmissão pessoa-a-pessoa em doenças infecciosas respiratórias se baseie em um modelo de transmissão de doenças desenvolvido na década de 1930", escreveu a professora do MIT.

A Dra. Bourouiba comentou que desejava ver recomendações feitas com base na ciência e não em "políticas baseadas em fornecimento, por exemplo, porque não temos EPI (equipamento de proteção individual) suficiente".

O artigo repercutiu no Governo Trump e na OMS.

O uso obrigatório da máscara improvisada assume que cada pessoa é um infectado assintomático em potencial. A utilização impediria que patógenos expelidos pela respiração, tosse e espirro sejam projetados mais longe do que a organização de saúde da ONU e o CDC imaginavam.

Apesar de não haver evidência científica que prove que o uso de máscara pela população evita o contágio da doença, a OMS passou a recomendar o uso para todas as pessoas, como explica, ao Correio da Manhã, Ricardo Mexia, Presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública de Portugal.

"Não há, para já, evidência científica de que a utilização de máscara seja vantajosa para a população em geral. Mas também não há a evidência contrária. Ou seja, não sabemos. Não temos, neste momento, estudos suficientes que demonstrem que o uso de máscaras reduz a transmissão deste vírus".

Se há máscaras adequadas para todos seria outra questão.

"É difícil advogar que sejam implementadas medidas que não o podem ser, mas isso é um problema que a indústria e os fornecedores teriam de resolver", diz Mexia.

O problema foi resolvido incentivando o uso de máscaras de tecido comum, verbas a fundo perdido para confecção, marketing, sinalização de virtude e repressão.

Em mensagem em rede social publicada no fim do mês passado, o premiê Andrej Babis, da República Tcheca, deu seu conselho ao Presidente Donald Trump para enfrentar a pandemia que se alastrava rapidamente nos EUA: “Tente atacar o vírus à maneira tcheca. Usar uma máscara simples de pano reduz a sua propagação em 80%”.

No Brasil, o uso da máscara também está se tornando uma imposição de políticos, com direito a multas e prisão.

No mundo dos que clamam querer "salvar vidas" não há espaço para a ciência.

* Com dados e informações de Luís Oliveira e Silva/Jornal i, Daily Mail, Radio 4

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