De acordo com o Censo da Educação Superior 2017, com dados apurados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio  Teixeira (Inep), o ensino superior brasileiro tem cerca de 8,3 milhões de estudantes em cursos de  graduação. A maior parte dos estudantes está matriculada em instituições  de ensino privadas, com 75% das matrículas. Ao todo, 6,5 milhões estão matriculados em cursos presenciais e, cerca de 1,8 milhões, em cursos a distância.

Do total das matrículas vigentes em 2017, 10,6% são em Direito; 8,6% em Pedagogia; e 8,2% em Administração.

As licenciaturas, que formam professores para atuar nas salas de aula, representaram quase 20% das matrículas no ensino superior.

A preferência pelo curso de Pedagogia, que detém 45% das matrículas em licenciaturas, é seguida por formação de professor de Educação Física, com 12% ; formação de professor de Matemática, 6%; formação de professor de História, 5,7%; formação de  professor de Biologia, 5,3%; e formação de professor de Português, 5%.

A ONG Todos pela Educação ressalta que os dados contrariam o senso comum de que atualmente os jovens não querem ser professores.

Entre 2010 e 2017, estudo da ONG estima que um total 4,1 milhões de pessoas começaram uma graduação em Pedagogia e outros cursos de licenciatura, com 1,9 milhão (46%) optando por formação não presencial.

Conforme a análise, em oito anos, a quantidade de ingressantes em cursos voltados à docência reverteu entre as modalidades presencial e a distância.

"Grande parte dos futuros professores que vão estar em sala de aula estarão sendo formados a distância", afirma Ivan Gontijo, coordenador de projetos da Todos pela Educação, em entrevista ao jornal carioca O Globo.

No período  2010-2017, o número de calouros de magistério em faculdades particulares na modalidade EAD saltou de 128 mil (29% do total da rede pública e privada) para 336 mil (53%), contrastando com 50 mil (8%) em instituições públicas.

Dos 208 mil estudantes que ingressaram em 2017 em cursos EAD de faculdades particulares em busca de formação docente, 102 mil escolheram Pedagogia, 35 mil Educação Física e 15 mil Matemática.

A quantidade total de matriculados (veteranos+calouros) na rede privada EAD passou de 321 mil em 2010 para 633 mil em 2017.

Na modalidade presencial, ingressaram 292 mil alunos (66% do total) em 2010 e 251 mil (39%) em 2017, entre rede pública (19%) e privada (20%). Note-se que a redução de novas matriculas, 15%, é pequena comparada com a perda de participação de mercado, expandido e conquistado pelos cursos EAD de instituições privadas, que respondem por 93% dos formandos em magistério de cursos a distância.

O estudo destaca que enquanto o EAD representa mais de 60% das matriculas dos cursos de formação de professores, nos demais cursos a participação é de 25%.

Multiplicação da oferta

Na avaliação da ONG, a expectativa é que a participação das vagas do EAD no total de estudantes de licenciaturas continuará aumentando. Desde o governo Temer é permitido que faculdades ofereçam cursos EAD sem o correspondente presencial. Também foi eliminada a exigência de que o governo fizesse visitas prévias aos campi e as instituições ganharam autonomia para a criação dos próprios polos. O número de polos que podem ser criados hoje é calculado com base no Conceito Institucional (CI) da escola, obtido em avaliações feitas pelo Inep. Instituições com CI igual a 3 (o mínimo satisfatório) podem ter até 50 polos; se o CI é igual a 4, o número aumenta para 150 e, se o CI é 5, a instituição pode criar até 250 polos.

Em apenas um ano após o decreto, de 2017, o número de polos saltou de 6.583 para 15.394, segundo dados de maio/2018 do Ministério da Educação. Contudo, o ensino a distância ainda não é a primeira opção de brasileiros. É o que mostra estudo da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), onde 56% dos entrevistados afirmaram preferir a graduação presencial, contra 27% que preferem EAD.

Para Celso Niskier, vice-presidente da Abmes, porém, cresce o número de adeptos do ensino a distância, especialmente entre os mais novos. “O jovem tem  compreensão maior de como a tecnologia pode ser usada no ensino.”

Áreas EAD e número de matriculados

  • Educação 641.580
  • Ciências Sociais, Negócios e Direito 596.457
  • Saúde e Bem-Estar Social 108.346
  • Serviços 57.556
  • Engenharia, Produção e Construção 40.105
  • Ciências, Matemática e Computação 37.689
  • Humanidades e Artes 10.352
  • Agricultura e Veterinária 2.333

Fonte:  Censo da Educação Superior 2016/MEC

Concluintes e qualidade dos cursos

Setenta e dois por cento dos concluintes dos cursos de formação de  professores são da rede privada e 28% da rede pública de ensino  superior. A maioria dos formados ainda são da modalidade presencial  (57%).

Aposta para expandir o número de matrículas no ensino superior do País, o ensino a distância é alvo de críticas de parte dos especialistas, sob argumento de qualidade menor do que nos cursos presenciais.

Segundo o levantamento da Todos pela Educação, de modo geral, o  desempenho de cursos e estudantes da modalidade EAD é pior se comparado à modalidade presencial. Em relação aos cursos, há menor concentração de graduações online entre aquelas com melhor avaliação (conceitos 4 e 5) pelo Inep.

Além de matrículas e de formandos, a ONG avaliou os dados sobre o  desempenho dos formados em cursos voltados à docência no Exame Nacional  de Desempenho de Estudantes (Enade), também do Inep/MEC. De acordo com a  análise, os ex-alunos de formação a distância se saem pior do que seus  colegas de formação presencial.

Três quartos dos formados por EAD (75%) têm notas inferiores a 50  (valor máximo de 100). Entre os formados em educação presencial, os  percentuais de baixo desempenho é dez pontos percentuais menor (65%).

Tanto os dados do Censo da Educação Superior quanto os do Enade mostram que o perfil socioeconômico dos dois grupos de alunos é diferente – em geral, Gontijo diz que quem estuda a distância vem de família com renda mais baixa ou precisa trabalhar, dispondo de menos tempo para se dedicar aos estudos.

Por esse motivo,  Gontijo analisou as notas do Enade de estudantes que tinham o mesmo perfil, diferenciando apenas se estudavam a distância ou presencialmente.

O resultado do estudo aponta que a probabilidade de um estudante de licenciatura EAD estar entre os 25% dos alunos com notas menores no Enade 2017 é de  30%. Já quando se trata de um aluno do curso presencial, a probabilidade cai para 22%.

Considerando o grupo oposto – os 25% de alunos com as notas mais altas,  a probabilidade de um aluno EAD estar nesse grupo é de 20% e a chance de um aluno presencial ser incluído sobe para 28%.

A ONG avalia que “a grande maioria dos cursos de formação inicial para professores precisa de melhorias significativas. Ainda assim, é possível notar que os cursos da modalidade EAD possuem indicadores de qualidade pior”.

Para Gontijo, o Brasil está indo na contramão de outros países que se destacam em rankings mundiais de educação:

Chile e Peru são os que mais avançam no Pisa na nossa região. No Chile, a formação de professores a distância está proibida. No Peru, novos cursos a distância não poderão ser abertos a partir de 2020. O México só forma seus docentes em cursos presenciais.

Para parte de especialistas, porém, o EAD cumpre o papel de levar a formação superior ao interior do Brasil e atingir diversos extratos socioeconômicos.

A formação a distância é uma das estratégias para atingir a meta do Plano Nacional da Educação (PNE), que prevê taxa líquida de matrícula no ensino superior de 33% entre jovens de 18 a 24 anos até 2024. Apenas 18% dos jovens nessa faixa etária estão hoje no ensino superior.

* Com informações e dados da Todos pela Educação, MEC, Agência Brasil, O Globo, Estadão e Poder 360

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